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Holambra Holambra (7): Cultura, Esporte e Lazer

by Mari Smits

Em 1960, para as comemorações de 12 anos e meio de comunidade holandesa, construíram o Clube. Para a inauguração, um grande baile foi organizado e apresentações de teatro foram encenadas pelos imigrantes. Quem não dispunha de roupa adequada para a ocasião, aproveitava um cobertor que, devido ao calor tropical, não tinha muita utilidade, e o transformava em um lindo terno. Sacos de arroz, com um pouco de habilidade da dona de casa, rapidamente era transformado em um lindo vestido de baile. O problema era chegar limpo ao local do baile, uma vez que o transporte era charrete, e com charrete na estrada de poeira ou lama, tudo podia acontecer…





Foi o caso do Sr. ‘Calça Curta’ que, por ter perdido seu único terno para as baratas (Parte 5), vestiu um lindo terno de cobertor, confeccionado por sua esposa. No trajeto do sítio para o clube, a barrigueira de seu cavalo rasgou, fazendo com que a charrete desatrelasse do cavalo, tombando para frente. O ‘Calça Curta’ então, fez de seu cinto da calça, uma nova barrigueira, mas ao comandar o cavalo para seguir, o cinto também se rompeu. Desta vez, o tombo foi para trás. O casal então seguiu à pé, deixando o cavalo pastando na beira da estrada, no sítio Van De Groes. Chegando no baile foram imediatamente notados por todos que lá estavam, pois suas roupas estavam sujas de barro e o ‘novo terno’ todo rasgado. Para o casal, o baile acabou cedo em razão ao desconforto de estarem sujos, rasgados e por que também tinham uma longa caminhada de volta para casa…

Aproveitando as comemorações de aniversário da colônia, originaram o ‘Zeskamp’ que significa ‘Seis Jogos’, juntando as seis colônias holandesas no Brasil. O intuito desses jogos era manter o contato com as demais colônias, confraternizando e apostando em eventuais casamentos, mantendo as tradições.



Em seguida a construção do clube, veio os campos gramados de futebol e quadras de volley.

O Salão do clube era muito utilizado para grandes festas, bailes, peças de teatro e até cinema, passando documentários ou filmes em ‘V8’. Aulas de dança de salão e ballet, logo também tomaram espaço no novo clube.



Para se refrescarem, todos os domingos, a comunidade descia ao pé da cachoeira para se refrescar. Era uma bela queda de água e no final, uma piscina se formava. No entanto, o perigo era constante. Em certo domingo, um cavalo atrelado à uma charrete, resolveu beber água bem no inicio da queda d’água. O cavalo tropeçou e desceu escorregando toda a cachoeira. O cavalo sobreviveu, mas a charrete ficou toda despedaçada, fazendo a família voltar para casa a pé, em um percurso de quase 10 quilometros. O susto dos que se banhavam ao pé da cachoeira, jamais será esquecido.

Então, em meados de 1960, com a colaboração do Sr. Bert Wagemaker, holandês e morador de São Paulo, e que dispunha de máquinas especiais de terraplanagem e com a concessão de terras do tipo brejo, pelo Sr. Henny Ten Buuren, construíram um lago artificial, chamando o local de ‘Mini-Praia’. Pouco depois da construção da barragem pronta, ela foi colocada a prova com fortes chuvas, mas o Sr. Bert tranquilizou a todos, afinal, holandeses são bons em construir diques!





Foram posicionados no meio do lago, uma balsa e um trampolim com três níveis, sendo o mais alto a aproximadamente 3 metros da água. Quem se arriscava mergulhar de cabeça do mais alto, certamente se lembra até hoje do quanto doía errar o salto! Um bar equipado com vestiários e banheiros, chuveiros, campos de vôlei e futebol, além de dois mastros de espirobol, completaram o complexo. A abertura da temporada primavera-verão era festejada com um delicioso churrasco no espeto de bambu. As aulas de natação eram dadas por voluntárias, tanto para grupos de crianças, como para adultos. Nos finais de semana, a ‘Mini-Praia’ se transformava em local de ponto de encontro para todas as idades. Muitos chegavam cedo para assegurarem um bom local para um piquenique familiar ou entre amigos.

Aproximadamente no final do mês de março, as crianças da aula de natação, recebiam seus diplomas e, os que já sabiam nadar, participavam de campeonatos de natação, divididos em grupos por idade e sexo. As competições eram por raias que atravessavam o lago em sua largura. Após a entrega da premiação, uma saborosa sopa de ervilhas tradicionalmente holandesa, era preparado e servido por um grupo grande de voluntárias.



A ‘Mini-Praia’ foi anexada às atividades do clube, sendo assim um lugar somente frequentado por sócios. Mas como era uma represa grande, os “não sócios” faziam uso dela também para se refrescar. No entanto, o local utilizado por eles se tornara cada vez mais perigoso, devido a um banco de areia formado pelas enxurradas das chuvas, fazendo com que repentinamente, o alcance dos pés no chão não era mais possível e consequentemente, muitos afogamentos foram registrados. Foi construída então outra barragem, abaixo da ‘Mini-Praia’ e represado a água. Esse espaço foi liberado e recebeu o nome de ‘Nossa Prainha’.

Para ocupar as crianças e adolescentes, uma Escola de Economia Doméstica foi construída. Inaugurada com o nome de ‘Príncipe Bernardo’, era onde todos em período extra escolar, podiam assistir aulas de corte e costura, cozinha, pintura, além de aprender a lavar e passar roupas. No final de cada ano, as alunas do curso de corte e costura, mostravam o seu trabalho através de desfiles de modas e bazares.



Também foram formados grupos de escotismo como os ‘ padvinders’, ‘ Rakkers’ ‘ Ruiters’, ‘ Ridders’, ‘ Zonnenstralen’ entre outros. Grandes líderes como o Henk de Bruin, Bernardo Hulshof, Padre Sijen, Padre Ansfredo, trabalharam como voluntários. E no final de cada ano, os grupos saíam para uma semana de acampamento. Grupos mais velhos iam para a mata e grupos mais jovens acampavam em antigos casarões de fazendas da região.



E as gincanas de carros? Essa deliciosa programação teve inicio no final dos anos 1960, quando a maioria já dispunha de carro e quem não tinha, pegava carona. Um grupo de voluntários preparava a rota e formulava um questionário cultural e diversas brincadeiras pelo caminho. O percurso variava de 100 a 300 quilômetros, pelas cidades da região. Um dia inteiro na estrada e todos atentos, pois a competição além de ter “pegadinhas” como por exemplo trocar o pneu do carro em determinado trecho, onde um observador “fantasma” à distancia cronometraria a troca mais rápida, tinha também os que sabotavam placas de indicação de transito ou “subtração” do questionário de dentro do veículo concorrente. Para burlar a fiscalização rodoviária, os carros na competição tinham uma bandeirola ou adesivo, com o desenho de uma garrafa de gim e uns talos de cana de açúcar. Mas os postos de combustíveis foram proibidos de funcionar aos domingos, a gasolina ficou muito cara e então, a gincana de carros passou a ser de charretes, por aqui mesmo na colônia.

Para quem gostava de canto, o Sr. Kees Kager maestrou os corais dos Senhores e das Senhoras, com o Sr. Wigman no órgão. Em datas especiais como Natal ou Bodas de Holambra, os dois corais se juntavam em uma só harmonia. O Sr. Frans Eltink, mais conhecido como ‘Chico Sapo’, assumia a maestria quando necessário. Para os jovens, Sr. Henk de Wit formou outro grupo. Assim, todas as missas eram cantadas. Com o passar dos anos, os maestros foram se aposentando e outros tomavam os seus postos.





Com incentivo do Sr. Welle, o Frans Eltink (Chico Sapo) começou a dar aulas de musica e montou a primeira banda. Não demorou e a banda já representava honrosamente a colônia holandesa em diversas cidades da região, bem como em festas e inaugurações da comunidade.

Na área do ‘ Saúde e Social’, grupos de voluntários se alternavam nos bairros, em postos chamados ‘ Avançados’, distribuindo leite em pó, atualizando a vacinação das crianças e orientando as mães em relação ao peso, saúde e higiene de seus bebês. Em 1961 foi implantado um curso para gestantes holandesas e brasileiras, logo também se expandindo para curso de primeiros socorros.

Todas as atividades sócias culturais eram organizadas e realizadas por voluntários, mas sempre com total apoio da Cooperativa.



Desde 1948, a saga da imigração holandesa foi registrada passo a passo, pelo pioneiro Welle, o “Calça Curta”, com sua máquina fotográfica do tipo “caixão”. Desde a destruição da 2ª Guerra Mundial na Holanda, os preparativos para a imigração, a viagem de navio, até como era e no que foi transformada, a terra da antiga fazenda Ribeirão. O fotógrafo por ‘hobby’ foi até considerado como preguiçoso, pois enquanto todos davam seu suor, o ‘Calça Curta’ estava registrando tudo sempre com sua máquina na mão. Mas não demorou e ele se tornou o fotógrafo oficial para casamentos, batizados e festas particulares. Os imigrantes também lhe pediam fotos para enviarem aos seus familiares na Holanda. Com tudo isso, o ‘Calça Curta’ formou um acervo de mais de seis mil negativos. Surgiu então, em 1988, a sua ideia de montar o “Museu Histórico e Cultural de Holambra”, contando através de fotos, toda esta história de união, luta, suor e coragem.

Através de doações de simpatizantes, o acervo foi montado com duas mil fotos, a construção de réplicas das primeiras casas de pau-a-pique e alvenaria, decoradas com móveis utilizados na época e também a construção de um barracão para a exposição de maquinarias e tratores trazidos na imigração.



O considerado preguiçoso ‘Calça Curta’, teve o seu trabalho reconhecido pela Coroa Neerlandesa recebendo, na ocasião das festividades de 50 anos de colonização holandesa, em 1998, a medalha “Oliver van Noort”.

Próxima sexta a Parte 8 – A Produção. Até lá!

Pesquisa e texto: Catharine Welle Sitta. Colaboração: Rita Gonçalves

Mais fotos na pagina do Facebook da Catharine Welle Sitta.

Source: https://holambra.nl/?p=1402